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:: Quarta-feira, Abril 19, 2006 ::

António Cardoso vai arbitrar meia-final da UEFA Futsal Cup a Moscovo

O "czar" da arbitragem nacional


António Cardoso é uma das maiores referências da arbitragem portuguesa além fronteiras. Considerado o 7.º melhor árbitro do Mundo na última época, o juiz do Conselho de Arbitragem da A.F. Coimbra cumpre o seu jogo internacional número 140 quando amanhã entrar em campo no desafio entre Dínamo de Moscovo e Kairat, a contar para as meias-finais da UEFA Futsal Cup. Com discurso frontal, António Cardoso aponta o dedo ao que está mal no panorama desportivo nacional

Ricardo Ferreira Santos

Diário Coimbra (DC) - Entrou na arbitragem do futsal em 1996 e em 1998 já era internacional. Como aconteceu essa ascensão meteórica?
António Cardoso (AC) - Naquele momento a conjuntura era favorável. Posso dizer que, relativamente a outros jovens de hoje em dia, tive alguma sorte, mas a sorte dá muito trabalho. É extremamente importante que quando a oportunidade passa por perto, nós estejamos em condições de a agarrar. É necessário estar muito atento para que a felicidade nunca nos saia das mãos. É extremamente difícil chegar ao topo, mas ficar lá em cima, anos a fio ao mesmo nível, não é menos complicado.

DC - Afirmou publicamente em 2003 que Portugal tem uma cultura desportiva de terceiro mundo. Continua a manter essa opinião?
AC - Penso que nada se tem alterado no que tem norteado o panorama desportivo nacional. Somos um país de futebol e tudo está vocacionado para aí. As pessoas confundem amiúde, para não dizer quase sempre, que quando se fala em desporto se fala em futebol. Com tudo aquilo que a máquina e o negócio futebol movimentam é muito difícil para que as outras coisas apareçam e cresçam de forma sólida. No fundo, vivemos quase das esmolas, das coisas que o futebol deita fora.

DC - Mas há excepções¿
AC - Há meia dúzia de casos, que são fáceis de detectar, em que se começa a ver algum entusiasmo, algum interesse para que as pessoas possam gostar das suas modalidades em primeiro lugar e coloquem os clubes para segundo plano. Isto é importante para fazer face à ¿clubite¿ que continua a ser pedra basilar de todo o fenómeno desportivo.

DC - Começou como árbitro de futebol, mas garantiu que nele não passaria do patamar distrital. Porque é que tem essa certeza?
AC - Não tenho muitas dúvidas sobre isso. Todas estas coisas que são do domínio público e que se relacionam com a arbitragem não se coadunam com a minha forma de estar e ver o desporto e a arbitragem. Caminhos haveria que me recusaria sempre a trilhar e tenho a noção que pagaria a factura de tal ousadia por me opor a interesses instalados e relacionamentos promíscuos entre políticas, desportos, enfim, entre entidades várias e pessoas de todas as índoles e credos.

DC - O futsal está longe desse ¿lado negro¿ da arbitragem?
AC - Gostaria de dizer que sim, mas começamos a conviver com pessoas que o futebol deita fora. Não são elementos que deixam o futebol porque se apaixonaram pelo futsal, essas seriam bem vindas, mas que são postas fora porque não têm capacidade para lá estar. Ainda assim, não tenho dúvida alguma que o grosso do pelotão que está no futsal tem capacidades e defende muito mais os valores do que muita gente que anda no futebol.

DC - Na época passada foi considerado o sétimo melhor árbitro do Mundo e em Portugal ficou na¿ sétima posição. Foi com ironia que afirmou que Portugal deve ter os sete melhores árbitros do mundo.
AC - Lendo objectivamente as classificações, Portugal teria os sete melhores árbitros do mundo. Quando há gente responsável que me diz que sabe muitas coisas mas que não pode fazer nada, quem sou eu para contrariar isso. Felizmente, tenho o meu nome em algumas esferas que gerem não só o futsal, mas também o futebol 11. Prova disso é que fui indicado pela UEFA como um dos homens que esteve a trabalhar estritamente com a arbitragem no último campeonato da Europa 2004 de futebol.

DC - Satisfeito com o reconhecimento internacional?
SC - É motivo de orgulho para mim que as pessoas lá fora me considerem bastante, me chamem para dirigir jogos de grandes competições e que me indiquem para cursos de formação no estrangeiro como instrutor FIFA. Existe muita gente que me pergunta semanalmente, dos vários pontos do país e do Mundo, sobre leis de jogo e técnicas de arbitragem.

DC - A nível interno acaba por ser reconhecido, mas não pela entidade que o deveria fazer.
AC - Podem dizer que o António Cardoso não tem sido o primeiro classificado em Portugal, mas naquelas votações que são muito importantes para mim, em que votam jornalistas, jogadores, treinadores e dirigentes das equipas nos cinco anos em que se realizaram em Portugal, eu fui o árbitro do ano. Isso enche-me de orgulho e é a prova que aqueles que me têm de aturar e que eu aturo ao longo do ano gostam do meu trabalho.

DC - Há alguma fórmula para o sucesso na carreira de árbitro?
AC - Não basta ter um emblema de internacional para se ser melhor ou pior. Os árbitros têm de fazer todos os jogos com a maior seriedade, seja ele qual for. Quer seja de infantis ou de seniores, aquela é a partida mais importante da carreira de cada jogador, pois prepararam-se para ganhar naquele jogo e só tem lógica querer ganhar o jogo seguinte se ganharem esse primeiro. Para se conquistar o respeito dos intervenientes, há que encarar cada encontro com a maior seriedade.

DC ¿ Qual é a sua referência na arbitragem?
AC - O meu amigo Pedro Galan, é o actual responsável pela arbitragem da Liga Nacional Fútbol Sala (Espanha). Fez mais de 300 jogos internacionais e fosse qual fosse o jogo, encarava-o como se fosse o primeiro. É uma pessoa extremamente crente nas suas capacidades, mas nunca deixou de dar o seu melhor em todos os momentos. Socialmente é uma pessoa intocável.

DC - Numa carreira recheada de momentos de sucesso não constam ainda participações em Mundais. Esteve pré-nomeado para Taipé, mas acabou por não ir. O que se passou?
AC - Estava seleccionado para este último campeonato do mundo, mas a minha candidatura perdeu-se a ¿meio do caminho¿. Foi-me confirmado por muita gente que estava nomeado e, à última hora, fui ultrapassado. A forma como isso aconteceu é que não consigo entender e ninguém me conseguiu explicar.

DC ¿ Amanhã vai arbitrar o encontro da meia-final da UEFA Futsal Cup. O que conhece de Dínamo de Moscovo e Kairat Almaty?
AC - Conheço muito bem ambas as equipas. Depois de tantos jogos internacionais, conheço a maioria dos jogadores. Presumo que dos 10 jogadores que entrarão em campo, oito ou nove serão brasileiros. Já os arbitrei várias vezes e tenho a vantagem de eles já me conhecerem.

DC - Que informações procurou obter do jogo da 1.ª mão?
AC - Procurei saber junto dos meus colegas espanhóis como correu a partida. Sei que foi um jogo mais ou menos equilibrado e em que a finalização fez a diferença [ndr: Dínamo venceu 0-3]. Normalmente, procuro informar-me como as equipas são a nível disciplinar. Mas é o que costumo dizer, quando o jogo começa e a bola vai mais para um lado do que para o outro, tudo o que sabemos é subjectivo. Não podemos ter só um plano de actuação e, quando for chamado a intervir, espero que as minhas decisões não fiquem para a história do jogo.

BI
Nome
: António José Fernandes Cardoso
Data de Nascimento: 12/04/1964 (41 anos)
Naturalidade: Vouzela
Percurso na arbitragem: Futebol 11 (1992-1996) e Futsal (desde 19996)
1.ª Categoria: 1997
Internacional: desde 1998
1.º Jogo internacional: Finlândia-Chipre (na Holanda)
N.º de jogos internacionais: 139
Próximo jogo (n.º 140): Dínamo Moscovo-Kairat (meia-final UEFA Futsal CUP)
Campeonatos da Europa: Rússia 2001, Itália 2003 e República Checa 2005
Principais momentos: 3 semifinais de Campeonatos da Europa, 2 finais de Taça dos Campeões, final do torneio FIFA de Genk (Bélgica), 7 finais da Taça de Portugal, 5 Supertaças e vários jogos decisivos do campeonato nacional.

:: RICARDO SANTOS 12:23 PM [+] ::
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